Esqueça o 12 de junho. Se você está planejando passar o dia dos namorados nos estados unidos, a primeira coisa que precisa colocar na cabeça é o dia 14 de fevereiro. É o Valentine's Day. Mas, honestamente, chamar essa data de "Dia dos Namorados" é uma tradução que mal arranha a superfície do que realmente rola na cultura americana.
É diferente. Muito diferente.
No Brasil, a data tem um peso quase exclusivamente romântico, sexy, focado em casais. Nos EUA? Bom, é uma celebração de afeto que inclui sua mãe, seu cachorro, seu melhor amigo e, bizarramente para alguns brasileiros, até o seu professor do primário. É uma avalanche de cartões de papel e corações de açúcar que movimenta bilhões de dólares. Segundo a National Retail Federation (NRF), os americanos gastam rotineiramente mais de 25 bilhões de dólares por ano nessa brincadeira. É muita grana.
O choque cultural do Valentine's Day
Se você entrar em uma Target ou no Walmart em janeiro, já vai ver as prateleiras explodindo em tons de rosa e vermelho. O Valentine's Day não espera o Carnaval acabar (até porque não tem Carnaval lá). A grande diferença que choca quem vem de fora é o conceito de "Valentine". Nos EUA, "Valentine" não é necessariamente o seu parceiro sexual ou romântico.
Você pode ser o "Valentine" da sua filha.
As crianças em idade escolar são as maiores protagonistas dessa engrenagem. Elas levam caixas de sapatos decoradas para a escola, onde os colegas depositam cartões baratos — aqueles que vêm em pacotes de 30 unidades com desenhos do Batman ou da Disney — para garantir que ninguém se sinta excluído. É uma lição de inclusão social disfarçada de feriado comercial. Se você é um expatriado morando lá, prepare o bolso para os "goodie bags" que seu filho vai ter que distribuir para a sala inteira. Não pode dar só para o melhor amigo; tem que ser para todos. Regra da escola, geralmente.
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A herança histórica que ninguém te conta
Diferente do nosso 12 de junho, criado pelo publicitário João Doria (pai) em 1948 para alavancar as vendas de junho, o 14 de fevereiro tem raízes profundas e meio macabras. Tem o São Valentim, claro. Mas qual deles? Houve pelo menos dois ou três mártires com esse nome. A lenda mais famosa diz que Valentim era um padre que realizava casamentos proibidos pelo imperador Cláudio II, que achava que soldados solteiros lutavam melhor.
Valentim foi executado.
Antes de morrer, ele teria escrito uma carta para a filha do carcereiro e assinado como "From your Valentine". Daí vem a tradição de assinar cartões. Mas a real é que a popularização comercial veio mesmo no século XIX com Esther Howland, conhecida como a "Mãe do Valentine Americano", que começou a produzir cartões em massa em Massachusetts.
Jantar fora no dia dos namorados nos estados unidos é uma cilada?
Kinda. Se você quer um jantar romântico em Nova York, Chicago ou Los Angeles no dia 14 de fevereiro, boa sorte. Você deveria ter reservado em novembro. Os restaurantes operam no que chamam de prix fixe menus. Basicamente, eles tiram o cardápio normal e enfiam um menu degustação de três pratos por um preço inflacionado.
Você vai pagar caro. Vai comer rápido, porque eles precisam girar a mesa para o próximo casal às 20h. E, provavelmente, vai estar tão apertado que você vai ouvir a briga do casal da mesa ao lado. Muitos americanos "raiz" preferem celebrar o Galentine's Day no dia 13 (um feriado não oficial criado pela série Parks and Recreation para celebrar amizades femininas) e ficar em casa no dia 14 pedindo pizza.
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O fenômeno das flores e o custo do romantismo
O preço das rosas vermelhas de haste longa sobe de forma astronômica na semana que antecede o evento. É a lei da oferta e demanda no seu estado mais puro e cruel. Estima-se que mais de 250 milhões de rosas sejam produzidas apenas para este dia. A maioria vem da Colômbia e do Equador, chegando em aviões cargueiros refrigerados em Miami antes de serem espalhadas pelo país.
Se você esquecer as flores, você está frito. Mas não é só flores. O americano médio gasta uma parte considerável do orçamento em:
- Doces (aqueles coraçõezinhos de giz chamados Conversation Hearts que têm gosto de nada).
- Cartões de felicitações (a Hallmark domina o mercado aqui).
- Joias (o setor que mais lucra em termos de valor bruto).
- Jantares ou experiências.
Diferenças práticas: Brasil vs. EUA
| Detalhe | Brasil (12 de Junho) | EUA (14 de Fevereiro) |
|---|---|---|
| Público | Casais românticos apenas. | Amigos, família, pets, colegas e casais. |
| Origem | Estratégia de marketing de 1948. | Tradição religiosa/histórica milenar. |
| Escolas | Vida normal, raramente se comemora. | Festa obrigatória com troca de cartões. |
| Vibe | Jantar à luz de velas e lingerie. | Cartões fofos e "obrigado por ser meu amigo". |
Note que a pressão social nos EUA é distribuída. No Brasil, se você está solteiro no Dia dos Namorados, você se sente um pária. Nos EUA, você pode celebrar com seus amigos ou até com seus pais sem parecer um "perdedor". É um conceito de amor mais amplo, embora igualmente consumista.
O lado sombrio: O estresse da data
Nem tudo são flores (literalmente). Existe um termo chamado Valentine's Day Anxiety. A expectativa de criar o momento perfeito no Instagram gera uma pressão psicológica imensa. Para os brasileiros que moram lá, o estranhamento vem da falta de "calor". Enquanto no Brasil a data é visceral, nos EUA ela pode parecer um pouco protocolar. "Aqui está o meu cartão, aqui está o seu chocolate, estamos quites".
E tem os solteiros. O movimento Single Awareness Day (S.A.D.) ganha força a cada ano. Muita gente aproveita o dia 15 de fevereiro para comprar todos os chocolates que sobraram com 75% de desconto. É o dia favorito dos pragmáticos.
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Dicas de quem entende do riscado
Se você vai passar o dia dos namorados nos estados unidos pela primeira vez, não cometa o erro de ignorar as pessoas ao seu redor só porque você não namora com elas. Se você tem um bom relacionamento com sua sogra americana, mande um cartão. Se tem filhos na escola, verifique a mochila deles uma semana antes; vai ter um aviso sobre a festa da classe.
E o mais importante: se você quer impressionar alguém romanticamente, fuja do óbvio. Os americanos valorizam "gestos personalizados" tanto quanto nós. Um jantar cozinhado em casa com ingredientes de qualidade do Whole Foods muitas vezes ganha mais pontos do que um restaurante lotado e barulhento na Times Square.
Como sobreviver e aproveitar
A real é que o Valentine's Day é o que você faz dele. Se você quer a experiência completa, mergulhe no clichê. Compre o urso de pelúcia gigante, coma o chocolate em formato de coração e escreva um cartão à mão. Cartões escritos à mão são uma moeda forte nos Estados Unidos; eles guardam essas coisas por décadas.
Para os casais brasileiros em solo americano, a dica de ouro é: celebrem os dois. O 14 de fevereiro para se integrar à cultura local e o 12 de junho para manter a chama verde e amarela acesa. É o melhor dos dois mundos e uma desculpa dupla para ganhar presentes.
Próximos passos práticos para quem está nos EUA agora:
- Reserve agora: Se você está lendo isso em janeiro ou início de fevereiro, pare tudo e faça uma reserva no OpenTable ou Resy. As mesas decentes somem rápido.
- Logística das flores: Não compre flores em supermercados no dia 14 à tarde. Elas estarão mortas ou serão as sobras das sobras. Encomende em uma floricultura local (local florist) para entrega na manhã do dia 14.
- Cartões de escola: Se tem filhos, compre os cartões com duas semanas de antecedência. Os temas populares (Marvel, Bluey, Taylor Swift) esgotam primeiro.
- Cuidado com o frete: Se for enviar algo para outro estado, lembre-se que o inverno nos EUA pode causar atrasos logísticos imensos (nevascas). Planeje para que o presente chegue no dia 12.
O Valentine's Day não é apenas sobre romance; é sobre não deixar passar em branco quem importa para você. Seja um parceiro de dez anos ou a vizinha que cuida do seu gato quando você viaja. No fim das contas, é uma pausa comercial — mas necessária — no meio do inverno rigoroso do hemisfério norte.