Você provavelmente acha que conhece a história. Uma menina cai em um buraco, toma um chá com um chapeleiro maluco e foge de uma rainha que adora cortar cabeças. Mas, honestamente, Alice no País das Maravilhas é muito mais esquisito e complexo do que os desenhos da Disney fazem parecer. Não é apenas um conto de fadas. É um quebra-cabeça lógico disfarçado de alucinação vitoriana.
Charles Lutwidge Dodgson era o nome real do autor. Ele atendia pelo pseudônimo de Lewis Carroll, mas, no dia a dia, ele era um matemático tímido e gago de Oxford. Imagine só. O cara que escreveu sobre gatos que desaparecem passava a maior parte do tempo resolvendo equações lineares e estudando geometria euclidiana. Essa dualidade é a alma do livro.
A obra nasceu de um passeio de barco em 4 de julho de 1862. Carroll estava com as irmãs Liddell — Lorina, Edith e a famosa Alice. Ele começou a improvisar a história para entreter as crianças. Alice Liddell gostou tanto que implorou para ele escrever. Ele escreveu. E o resto mudou a literatura mundial para sempre.
A Matemática Escondida em Alice no País das Maravilhas
Muita gente lê o livro e vê apenas "nonsense". Bobagem pura. Só que, para um matemático como Carroll, o nonsense era uma ferramenta de crítica. Naquela época, a matemática estava passando por uma revolução. Novos conceitos como números imaginários e álgebra simbólica estavam surgindo, e Carroll, um conservador da velha guarda de Euclides, odiava isso. Ele achava essas novas ideias uma loucura completa.
Pegue a cena do Chá Maluco. O Chapeleiro, a Lebre de Março e o Leirão estão presos no tempo. É sempre seis da tarde. Por quê? Alguns estudiosos, como Melanie Bayley da Universidade de Oxford, sugerem que isso é uma sátira aos quatérnios de William Rowan Hamilton. Os quatérnios são um sistema numérico que envolve quatro dimensões. Se você remove a quarta dimensão (o tempo), você fica apenas circulando em três, sem nunca sair do lugar. Exatamente como a mesa de chá onde eles mudam de lugar constantemente mas nunca terminam a refeição.
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É bizarro pensar que um dos livros infantis mais amados do mundo é, no fundo, uma grande piada interna sobre cálculo e lógica. Alice tenta recitar a tabuada e falha miseravelmente: "Quatro vezes cinco são doze, e quatro vezes seis são treze". Se você usar uma base numérica diferente (base 18, por exemplo), a conta até que faz um pouco de sentido. Carroll estava brincando com a ideia de que, se você mudar as regras da lógica, o mundo inteiro desmorona em caos.
Por que a Alice continua sendo um ícone cultural?
Alice não é a típica heroína vitoriana. Ela é chata. Ela responde. Ela é curiosa até demais e, muitas vezes, é bem mal-educada com as criaturas que encontra. E é por isso que ela funciona. Ela é uma criança real tentando navegar em um mundo de adultos que não faz o menor sentido. Quem nunca se sentiu assim em uma reunião de trabalho ou em um jantar de família?
A influência de Alice no País das Maravilhas na cultura pop é gigantesca. Vai desde a música White Rabbit do Jefferson Airplane até o filme Matrix. "Siga o coelho branco" virou um código universal para "saia da sua zona de conforto e veja o quão profunda é a toca".
O Gato de Cheshire e a Física Quântica
O Gato de Cheshire é, talvez, o personagem mais fascinante. Ele aparece e desaparece, deixando apenas o sorriso. Anos depois da publicação do livro, a física quântica começou a falar sobre coisas parecidas. Existe até um fenômeno chamado "Gato de Cheshire Quântico", onde as propriedades de uma partícula (como seu momento ou spin) podem ser separadas da própria partícula. Carroll previu a física quântica? Provavelmente não conscientemente. Mas a intuição dele para o absurdo era tão afiada que ele acabou esbarrando em verdades universais que a ciência só explicaria décadas depois.
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A Polêmica Vida de Lewis Carroll
Não dá para falar de Alice sem tocar no elefante na sala. A relação de Carroll com Alice Liddell e outras crianças tem sido alvo de debates intensos por décadas. Ele tirava fotos delas. Escrevia cartas constantes. Algumas pessoas defendem que ele era apenas um homem solitário que se sentia mais confortável na companhia inocente de crianças do que na rigidez dos adultos de Oxford. Outros veem algo mais sombrio.
A verdade é que não temos "provas" definitivas de nada impróprio, mas as páginas rasgadas do seu diário pessoal (destruídas pela família após sua morte) sempre levantam sobrancelhas. É um lembrete importante de que a arte e o artista são coisas separadas, mas interligadas. A obsessão de Carroll pela infância como um estado de graça pura é o que deu ao livro sua melancolia única. Alice está sempre crescendo ou diminuindo. Ela está perdendo sua identidade. "Quem é você?", pergunta a Lagarta. E Alice não sabe responder. Ela mudou tantas vezes de tamanho naquele dia que a sua noção de "eu" sumiu.
O impacto visual: de Tenniel a Tim Burton
As ilustrações originais de Sir John Tenniel são fundamentais. Sem elas, Alice não seria Alice. Tenniel era um cartunista político, e ele trouxe uma crueza e um realismo grotesco para os personagens. O Chapeleiro não era bonitinho; ele parecia alguém que realmente tinha sofrido envenenamento por mercúrio (comum na fabricação de chapéus na época, daí a expressão "mad as a hatter").
Depois tivemos a Disney em 1951. Aquela versão em technicolor transformou o pesadelo lógico em uma viagem psicodélica. Muita gente associa o livro ao uso de drogas, especialmente por causa do narguilé da Lagarta e dos cogumelos que alteram o tamanho de Alice. Mas Carroll era um clérigo anglicano conservador. É muito improvável que ele estivesse usando substâncias. A "viagem" era puramente intelectual.
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Lições de Lógica que Você Pode Usar Hoje
O País das Maravilhas é um lugar onde as palavras são usadas como armas. Humpty Dumpty (que aparece na continuação, Através do Espelho) diz: "Quando eu uso uma palavra, ela significa exatamente o que eu quero que signifique". Isso é política pura. É sobre o poder de quem define os termos da conversa.
Alice nos ensina que, em um mundo irracional, a única defesa é manter a sua própria lógica interna. Ela questiona o Rei, questiona a Rainha e, no final, percebe que eles são apenas um baralho de cartas. O poder deles só existe enquanto ela aceita as regras do jogo. Quando ela decide que aquilo é ridículo, o mundo desaba.
O que você pode fazer agora para mergulhar nesse universo:
Para quem quer ir além do básico e realmente entender o fenômeno Alice no País das Maravilhas, aqui estão alguns passos práticos.
- Leia a edição anotada: Procure por "The Annotated Alice" de Martin Gardner. É o padrão ouro. Ele explica cada piada matemática, cada referência vitoriana e cada trocadilho que se perdeu no tempo. Sem essas notas, você está lendo apenas metade do livro.
- Visite Oxford: Se tiver chance, vá ao Christ Church College. Você pode ver o jardim onde a Alice real brincava e o vitral na catedral que homenageia a história. É um choque de realidade ver o lugar físico onde tanta fantasia nasceu.
- Compare as traduções: Se você lê em português, procure versões diferentes. Traduzir Carroll é um pesadelo porque o livro é feito de trocadilhos ingleses. Ver como tradutores como Monteiro Lobato ou Sebastião Uchoa Leite lidaram com o "Jabberwocky" é uma aula de criatividade linguística.
- Estude o contexto histórico: Entenda o que foi a Era Vitoriana. O contraste entre a rigidez moral da época e o caos absoluto do livro torna a rebeldia de Alice muito mais significativa.
Alice não é uma história para crianças dormirem. É uma história para adultos acordarem. Ela nos desafia a questionar a autoridade, a linguagem e a nossa própria sanidade. No fim das contas, todos nós estamos um pouco abaixo do buraco do coelho, tentando fazer sentido de um mundo que insiste em mudar as regras a cada cinco minutos. A única diferença é que Alice teve a coragem de perguntar o porquê.